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× 21.11.02 vamos lá! mais uma música no blog, pra encher lingüiça. se vocês tiverem paciência, leiam a letra, é perfeita pra mim. se não tiverem, simples, não leiam! super-homem digo coisas sem querer tenho medo de você ela diz que não é assim! seis semanas sem te ver sempre quis um dia ser ela diz que não é assim! × quem, quando ugo pozo, 15:10 vinícius, meu caro, me desculpe, mas sua crônica será extirpada de maiúsculas para entrar nesse post. maiúscula não dá. é o cúmulo da falta de estética. o 6 de junho (vinícius de moraes) le jour de gloire est arrivé. "a marselhesa" na madrugada do dia 6 de junho, a pacífica travessa santa amélia, sita em copacabana, foi despertada por gritos femininos próximos da alucinação. assustados, acorreram os moradores para se deparar com o espetáculo de uma mulher, um francesa, que debruçada de sua janela, clamava para o céu noturno, como o clarim da liberdade. - brésiliens! reveillez-vous, brésiliens! l'europe a été envahie! vive la france! reveillez-vous, brésiliens! foi assim que uma jovem amiga minha soube da invasão da europa. por intermédio dela, provavelmente, dezenas de moças tiveram conhecimento da notícia, que por sua vez telefonaram para centenas de amiguinhas, as quais avisaram a milhares de outras. no espaço de um minuto esse grito criou a maior barafunda em que já se terão visto as linhas telefônicas do rio e dos estados da república: - alô? e são mais cem pessoas que sabem da grande notícia e se comunicam com mais mil. no espaço cristalino, serenizado por uma lua quase cheia, ondas hertzianas esbarraram, trançam-se, dão-se nós poderosos, criando estáticas insolúveis. a europa foi invadida! numa casa em santa teresa, um velho francês refugiado, cardíaco, morre de alegria. casais brigados trocam de bem, parturientes encruadas dão à luz como por encanto. um poeta com um poema atravessado encontra subitamente a solução. a europa foi invadida! no alto das favelas os negros batucam sem saber de nada. notam apenas que, na cidade embaixo, muitas luzes se acenderam em muitas casas. não sabem que o grande golpe foi dado para a extirpação completa do cancro racista no mundo. milhares de arcanjos desceram em milhares de pára-quedas em meio a um mar de fogo, nas praias e nos campos da frança. legiões de arcanjos impiedosos, traumatizados pela rapidez da queda e pela gana de possuir a terra, caindo sem ver onde, sobre o ventre amoroso da frança. o velho tempo, relativo, ainda tentou, com as suas ásperas mãos nodosas, forçar o cadeado do 5 para transformá-lo num 6 universal a se fechar em algema, na hora 0 do ataque - a hora comum para todos os povos subjugados do mundo - sobre os punhos do nazismo. em vão. desgarrada de seu próprio segredo a notícia corre, chega ao brasil três horas antes de acontecer na realidade. antes das barcaças de desembarque tocarem as praias da normandia, já o brasil sabia que as primeiras posições tinham sido firmadas em solo francês. telefonadas, champanha espocando, beijos, lágrimas, confraternização. na redação entra um preto, braço em riste, com um ramo de flores na mão: imagem eterna para um guignard. a emoção abrevia a vida de metade da população de, sem exagero, 5 anos menos. formam-se dilatações da aorta, por outro lado acontecem milagres. um hipotenso, com a máxima de 6, volta ao normal. muitos dormiam sem saber de nada - muitos cansados do trabalho braçal do dia, do massacre das filas, da miséria dos bondes e trens superlotados; muitos exaustos de dar pulo para conseguir o amanhã da família, muitos que a vida vem gastando, que a carestia vem submetendo, que as humilhações vêm afligindo, que o nervoso, a anemia, a úlcera do estômago, a velhice precoce vêm roendo sem remissão. esses dormiam, sem rádio ou telefone para saber a notícia. mas é para eles, mais que para os outros, que meu coração se volta neste momento. a hora da libertação se aproxima. é para eles que aquela mulher da sacada da travessa santa amélia grita o seu grito de amor e de anunciação: - brasileiros! despertai, brasileiros! junho de 1944 é... e o bin laden, hein? × quem, quando ugo pozo, 14:57 × 19.11.02 e amanhã eu vou colocar uma crônica do vinícius de moraes muito boa aqui. chama 'o seis de junho'. fala sobre o dia d, da invasão da normandia e etc e tal, mas o tema ainda é bem atual. vocês verão. × quem, quando ugo pozo, 07:16 meu diário, meu diário. você ainda é meu, não é? eu ainda posso dizer pra você tudo que eu penso, tudo que eu sinto... não posso? será que o fato de as pessoas que eu conheço lerem você faz de você um interlocutor não confiável? será que eu corro o risco de as pessoas pensarem que tudo que eu escrevo aqui é direcionado a elas? ... e afinal de contas, me responda o que não é direcionado a elas, meu diário. tudo aqui tem segundas intenções. tudo que eu digo eu espero que certas pessoas leiam. mesmo que eu saiba que ela sequer tem internet - aliás, é aí que eu digo mesmo. oras, o que é um diário senão um 'ouvido que é pinico', aquele ouvido para o qual dizemos todas as coisas que gostaríamos de dizer na cara das pessoas e não temos coragem? nesse ponto é que entra a arte de se fazer um blog. mais do que uma válvula de escape, um blog é arte de dizer sem realmente dizer. de dizer de forma velada, nas entrelinhas, de maneira que só quem interessa entenda o que está sendo dito. ou dizer de modo que apenas quem interessa não entenda. um blog é um grande exercício de auto-controle: você tem que pôr para fora aquilo que te incomoda sem realmente dizer tudo o que pensa; você tem que soltar os cachorros sem soltar a coleira. e, às vezes, brincar de arte-de-verdade: generalizar aquilo pelo que você está passando e transformar numa experiência universal. oras, e o que é que os grandes poetas faziam além disso? é, meu caro diário, talvez você não seja tão confiável assim, mas é exatamente por isso que eu gosto de você. pode ter certeza que eu vou continuar dizendo tudo que me der na telha aqui. mas claro, com a devida dose de generalização e ironia. × quem, quando ugo pozo, 07:15
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