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× 03.06.03 não é possível, o mundo descobriu que eu detesto tribalistas. onde quer que eu vá essa porcaria está tocando. até as vizinhas do andar de cima, uma maldita república - nada contra repúblicas, tudo contra essa específica - não param de ouvir isso! que pena... sou obrigado a ligar meu winamp para ouvir new order agora... "I used to think that the day would never come × quem, quando ugo pozo, 20:43 questão de escolha (atenção, esse texto contém spoilers) virou moda falar mal de matrix reloaded ultimamente nos blogs por aí. todos os críticos que sejam mais ou menos renomados e/ou tenham algum crédito para comigo andam dizendo que o filme é vendido, que virou um filminho de ação caça-níqueis e que perdeu todo o charme do primeiro. só elogiam o filme as fontes suspeitas - diga-se de passagem, veja e superinteressante. em parte, as críticas são procedentes. mas eu não posso deixar de dizer que essa análise é extremamente simplista. como filme, matrix reloaded é um absurdo. supondo que sejam uma hora e meia de filme (eu infelizmente não tive a idéia de cronometrar), temos um hora e vinte de ação e dez minutos de 'tentativa de salvar o filme', com um diálogo corrido com o tal arquiteto. a forma do filme mudou muito. mas seu núcleo permanece intocado - e é isso que as pessoas têm deixado de perceber. deixando um pouco de lado o discurso idiotizante de morpheus (troque 'zion' por 'usa' e 'machines' por 'muslims') e os efeitos super-ultra-hiper-revolucionários, e pegando apenas aqueles dez minutos de 'filosofia concentrada', é possível fazer uma análise intrigante do real propósito do filme, e até mesmo justificar o desequilíbrio entre cenas-para-pensar e cenas-para-vidiar. em que outro filme, lançado recentemente e pertecente ao mainstream, vocês viram uma explicação tão óbvia da dialética materialista e da forma de anulá-la? com licença. todo filme do mainstream americano é durkheimiano - com aquelas liçõezinhas de moral estapafúrdias do tipo 'você tem que achar seu lugar na sociedade'. matrix reloaded, mesmo sendo um filme de basicamente dez minutos, é um contraponto fundamental a essa visão onipresente, e parece que ninguém entendeu isso! em sua curtíssima fala, o arquiteto torna claros vários aspectos fundamentais do filme. em primeiro lugar, a matrix, obviamente, não é perfeita, por se tratar de um sistema baseado na exploração. por causa disso, sempre há um determinado número de anomalias que vão crescendo, e que se se tornarem exageradas, põem fim à matrix. por isso, uma parte dessas anomalias são retiradas por um predestinado para formar uma colônia fora da matrix e ir tirando várias anomalias pouco-a-pouco, até que se tira a anomalia principal - o novo predestinado. esse predestinado contém o 'código' para reformar a matrix e corrigir as anomalias, que, se continuassem crescendo em escala exponencial, destruiriam a matrix, e conseqüentemente toda a humanidade. portanto, cria-se a tal profecia, engana-se o novo predestinado, ele vai lá, passa o código para a fonte, e recomeça tudo outra vez, ao escolher novas anomalias potenciais para formar uma nova colônia. pára. vamos lembrar um pouquinho do materialismo histórico aqui, e de como decorreu a história do mundo depois que marx enunciou sua teoria. acreditem, disso eu vou voltar para o filme. hegel criou a dialética como uma forma de justificar a monarquia prussiana. dizia ele, o ser humano começa se juntando em famílias, que têm interesses comuns. porém, na sociedade civil, são apartados desses interesses comuns e jogados num mundo onde é cada um por si, criando uma contradição para a família. porém, nessa sociedade civil, homens com interesses comuns se unem novamente e formam o estado, que seria universal e representaria a perfeição, pois seria o reencontro do homem com si mesmo. a família é a tese; a sociedade civil, a antítese ou contradição; ambas se juntam e se combinam formando o estado, ou seja, a síntese. marx, percebendo o absurdo dessa teoria, colocou-a de cabeça para baixo. primeiro, disse que o estado não poderia ser a perfeição, pois se trata de homens delegando o poder de controlar seu próprio destino a outros homens, portanto alienando-se de seu destino. depois, completou a chacoalhada dizendo que as relações entre os homens são fruto do seu trabalho - daí que vem o nome materialismo. os homens trabalham e estabelecem uma sociedade de acordo com o modo como trabalham - o seu modo de produção. entretanto, esse modo de produção muda, com avanços tecnológicos, e a sociedade se torna obsoleta para suportar as novas relações de trabalho que estão se estabelecendo. daí, ocorre uma revolução e forma-se uma nova sociedade. a sociedade que se forma em decorrência das relações de trabalho é a tese; quando as relações mudam, se tornam a antítese ou contradição; ambas se juntam e se combinam dando origem a uma nova sociedade, ou seja, a síntese. voltando para a matrix. apliquem essa teoria na fala do arquiteto. a matrix seria a tese; as anomalias que se formam aleatoriamente seriam a antítese ou contradição; ambas se juntam para formar a síntese, que seria... a própria matrix, de novo?! espera, tem alguma coisa errada. mas é claro que tem. afinal de contas, todas as anomalias foram extirpadas da matrix! foram alienadas dela, e o predestinado, que contém todos os dados sobre todas as anomalias, é a fonte da qual a matrix bebe para saber como 'corrigir' aqueles 'defeitos', e manter-se funcionando. agora a gente vai de novo um pouquinho para o mundo real. depois de marx ter dito em alto e bom som tudo o que pensava do capitalismo, o capital tem trabalhado no sentido de eliminar suas contradições. keynes, por exemplo, para resolver o problema do desemprego estrutural - a grande contradição do capitalismo -, propôs que o estado torrasse milhões em obras não necessariamente necessárias, apenas para gerar empregos e fomentar a economia. não vou entrar em detalhes, mas é óbvio que a eficácia disso é limitada; ainda assim, por enquanto tem funcionado, e vai funcionar por mais algum tempo. mas a principal arma do capitalismo tem sido a alienação. as pessoas vêem tonys ramos e cristianes torlonis alegres e felizes passeando pelo leblon e acham que são eles próprio que fizeram algo de errado. os americanos que têm um pouquinho menos de oportunidade são taxados de losers e acreditam piamente que o são. os liberais dizem que o mercado regula tudo e as pessoas automaticamente se esquecem que quem faz o mercado são seres humanos. as pessoas vão à igreja e ouvem um 'ora que melhora' - e ficam lá, orando, até morrerem e seus cadáveres apodrecerem. oras, estão nos proibindo de pensar! falam em 'melhorar' o sistema, em vez de mudá-lo. é mais ou menos o que o oráculo quer dizer quando fala que 'a única solução é convivermos juntos' para o neo. é difícil explicar esse raciocínio, mas pensem um pouco. matrix é o capitalismo. zion é a contradição, a prova de que aquele sistema não funciona e precisa ser reformulado. a matrix usa da alienação de zion para apenas corrigir-se, por mais um ciclo, até que novas anomalias se formem. e o principal: continua alienando todo o resto da humanidade, prendendo-a a um sistema que ela sequer foi capaz de escolher! como diz o arquiteto no final do filme, é tudo uma questão de escolha. através de um silogismo, ele tenta convencer neo que ele não tem saída a não ser se juntar à matrix e dar origem à nova zion. se ele fizer isso, a humanidade se salva e zion é destruída, mas uma nova zion se formará. se não, zion será destruída do mesmo jeito, e além disso toda a humanidade e toda a matrix desaparecerão. parece sensato, portanto, se juntar à matrix. uma vez que zion está perdida, que pelo menos a humanidade alienada se salve, não? não. aí entra o silogismo, que neo, infelizmente, não percebe. ele prefere salvar a mocinha, mas na verdade, com ou sem mocinha, sua decisão deveria ser a mesma. a premissa falsa desse silogismo reside em: quem garante que zion não pode ser salva?. nada, oras! não importa quantas máquinas a matrix lance para destruir zion; exércitos gigantes já foram derrotados por exércitos minúsculos na história da humanidade. vide vietnã. enfim, de que adianta continuar em um sistema ininterrupto que apenas usa os seres humanos como massa de manobra, apenas explora seu potencial elétrico para sobreviver? agora troque 'elétrico' por 'de trabalho' e você tem um discurso marxista, não? neo decide enfrentar o sistema, apesar das chances reduzidas; ele acredita que é possível sair desse círculo vicioso. enfim, considerando novamente o filme como um todo. imaginem um filme que dissesse tudo isso que eu disse para todo mundo ouvir. de repente, estaríamos num mundo cheio de pessoas achando que podem mudar o sistema, e bem, não creio ser esse exatamente o intuito de um grande estúdio como a warner. o que fazer, então? fácil: entupa o filme de efeitos especiais, adicione um romancezinho clichê e reduza o papo filosófico para dez minutos. com isso, o povão vai adorar os efeitos especiais e dar dinheiro para o filme. a crítica especializada vai meter o pau e as pessoas que poderiam não vão entender. e todo mundo sai feliz: você tem um filme que arrecada milhões, com uma história semi-filosófica inclusa e que quase ninguém vai sacar! gostar do filme ou não é só uma questão de escolha de que lado você vai seguir. aqueles que se guiam pela forma do filme ou aqueles que se guiam pelo que ele realmente quer dizer. e aí? vai de pílula azul ou vermelha? × quem, quando ugo pozo, 20:03
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