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× 09.10.03 lei de murphy é você torcer o tornozelo, pela segunda vez no mesmo ano, na véspera do show da sua banda, quando você é baterista. quer saber? vou ao médico só sábado. toco de tornozelo quebrado, mas fora desse show é que eu não fico. × quem, quando ugo pozo, 15:10 × 08.10.03 fumeca festival universitário de música da eca a maldade está nos olhos de quem vê sexta-feira dia 10 minha banda? a laranja mecânica toca mais ou menos 3 da manhã. setlist. tem coisas que eu detesto - aqueles que me conhecem vão saber o quê -, e coisas que amo de paixão. viddy well, little brother. 1. deep purple - perfect strangers só pra lembrar, eu toco bateria. e 'enter sandman' é muito mais fácil que 'obstacle 1'. apareçam! (ps: eca = escola de cominucações e artes da usp; av. prof. lúcio martins rodrigues, 443, cidade universitária, sp/sp) × quem, quando ugo pozo, 23:02 × 02.10.03 deixar um comentário não dói. nem ler textos gigantes, pra falar a verdade. × quem, quando ugo pozo, 21:11 × 23.09.03 primeiro, é o zoellick (aquele secretário de comércio norte-americano panaca que andou tentando influenciar as eleições por aqui). escreveu um artigo no financial times acusando o brasil de ter sido o responsável pelo fracasso das negociações em cancún, e apresentando dados falaciosos como que para provar que o brasil tem uma tarifa agrícola maior que a americana. de fato, tarifa mais alta tem, mas é como única barreira protecionista, em contraste com o modelo protecionista americano, cheio de firulas extras que não se caracterizam como 'tarifas', mas que sobretaxam importações do mesmo jeito. depois vem o césar maia (cariocas, o que deu na cabeça de vocês para eleger esse criador de factóides?) escrevendo, na folha, para quem quiser ver, que o brasil está 'ameaçado' com o governo lula, traçando sutis paralelos entre o momento atual e os anos 70, quando estouraram contra-golpes de direita contra governos de esquerda na américa latina. palavras dele: 'os riscos estão aí, para quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir'. quer ameaça de golpe mais clara? aí, pra terminar, vem bernd pischetsrieder, presidente da volkswagen, dizendo que vai demitir todos os funcionários brasileiros que fizerem greve. é pra isso que querem flexibilização da clt, pelo visto, para poderem entrar nos países de terceiro mundo, usar mão-de-obra barata e mandar às favas quem se opuser ao abuso. o neoliberalismo anda com 'neo' de menos e 'liberalismo' demais. o próximo passo agora é colocar mulheres e crianças para trabalhar 16 horas por dia nas fábricas, afinal, todo mundo tem o direito de trabalhar, e pelo tempo que quiser, né? imperialismo americano, golpismo de direita no brasil, abusos contra os direitos do trabalhador... e as contradições do capitalismo vão se maximizando. entretanto, a elite internacional, bem letrada no assunto, já assimilou que contradições não causam geração espontânea de movimentos sociais, não leva ao surgimento de lideranças radicais, por mera causalidade mecanicista. de vez em quando surgem uns sectários de esquerda (não posso deixar de pensar no mst, que, apesar de ser um movimento legítimo, agita algumas bandeiras absurdas), mas radicais, no sentido em que paulo freire aplica a palavra (alguém com posturas rígidas, mas regidas por argumentos racionais e não por meras paixões, por meros idealismos), só surgem mesmo com educação e conhecimento. palavras vagas e impraticáveis atualmente. educação hoje é privilégio de escolas particulares, e é ditada de acordo com as regras do mercado - e em breve até o ensino superior assim vai ser. conhecimento, por sua vez, praticamente inexiste: o que há é um bombardeio de informações, todas unilaterais, evitando qualquer raciocínio acerca do querem dizer. depois do duplipensar, aqui vai mais uma palavra da novilíngua se fazendo atual: crimedeter. george orwell a define como 'a faculdade de deter, de paralisar, como por instinto, no limiar, qualquer pensamento perigoso. inclui o poder de não perceber analogias, de não conseguir observar erros de lógica, de não compreender os argumentos mais simples e hostis ao Ingsoc [troque-se aqui por status quo, neoliberalismo ou qualquer balela do tipo], e de se aborrecer ou enojar por qualquer tentativa de pensamentos que possa tomar rumo herético. crimedeter, em suma, significa estupidez protetora'. em outras palavras, é o bloqueio da capacidade de analisar criticamente qualquer informação a que se tem acesso, evitando transformá-la, de fato, em conhecimento. em 1984, o livro, essa faculdade era aprendida através da educação estupidificadora das crianças; hoje, é feita através do excesso de informações e da uniformidade de conteúdo dessas. afinal, o que é mais interessante, saber como foi o dia de combate das tropas americanas no iraque ou ler uma análise dos motivos da guerra, considerando os dois lados da questão? é esse o cenário que se apresenta no mundo hoje em dia. contradições maximizadas, o povo incapaz de pensar por si próprio, preso pelo crimedeter, a roda da dialética da história tentando seguir em frente e um planeta inteiro, conscientemente ou não, tentando freá-la. é complicado não ser pessimista assim. socialismo ou barbárie? barbárie, aqui vamos nós! × quem, quando ugo pozo, 14:48 × 21.09.03 tinha que ser no fantástico pra sair uma reportagem com três músicas seguidas do dandy warhols de trilha sonora. esse álvaro pereira júnior não perde uma chance de fazer propaganda. aliás, falando em propaganda, vocês, parcos leitores fiéis que ainda se dão ao trabalho de acompanhar este diário quase cadáver, já devem estar sabendo da minha decisão definitiva de trocar a faculdade de propaganda pela de jornalismo. não vou entrar aqui nos méritos e deméritos do jornalismo - não tenho uma visão idealizada de nenhuma profissão mais, como a que tinha de (pff) propaganda - mas eu queria falar um pouquinho de alguns dos motivos que me levaram a abandonar meu curso. em outras palavras, vou falar mal pra caralho de publicidade. engraçado que essa decisão coincidiu com o fato de eu ter lido o 1984, do george orwell. na verdade, eu li o livro depois, mas eu não imaginava que fosse me identificar tanto com 6079 smith w. não sou paranormal, médium e muito menos pastor evangélico para saber o que se passa na cabeça das pessoas, quanto mais das mortas. entretanto, depois de ler 1984, foi impossível não formular algumas teorias a respeito do que pensava george orwell. ou ele era um anticomunista babante que não teve noção do significado quase universal do que escreveu (e de fato há anticomunistas babantes que não têm noção do significado quase universal do que orwell escreveu e usam a obra como 'prova' dos seus silogismos); ou quis fazer uma crítica geral ao totalitarismo de todo tipo (assim como há antitotalitaristas que saem bradando aos quatro ventos que 1984 é uma crítica geral ao totalitarismo de todo tipo, ao mesmo tempo em que acreditam que a democracia é um sistema viável em um regime que dependeu de acumulação primitiva de bens para se formar); ou utilizou-se de uma ironia jamais vista na história da literatura para, usando como espelho o comunismo, denunciar contradições típicas do capitalismo (o que seria demasiado falta de visão para um visionário como orwell); ou, hipótese com a qual mais me identifico, orwell percebeu tanto que o regime da união soviética era o mais perverso tipo de capitalismo totalitarista já posto em prática - o que de fato era, como constatou istván mészáros meio século depois - quanto que o capitalismo de fato seguia para o mesmo rumo, com suas promessas hipócritas de liberdade, democracia, justiça e o escambau. mas, como estou escrevendo um post no meu blog, e não uma tese de doutorado em ciências sociais pela fflch, vou me dar o direito de uma imparcialidadezinha aqui, e deixar de lado a crítica à união soviética. até porque hoje em dia todo mundo mete o pau no que foi a urss, tanto esquerdistas (os mais sensatos) quanto direitistas (todos, até porque sensatez para essa corja é artigo de luxo), e também porque o comunismo, do modo como o entendiam os bolcheviques, não vai voltar a existir no mundo tão cedo. enfim, voltando ao assunto principal, minha mudança de curso e sua relação com o livro de orwell. durante algum tempo eu me sentia como winston na faculdade, ou seja, me sentia preso num curso que falava absurdos que todos deveriam compreender e aceitar. um dia estávamos em guerra com a eurásia, no outro sempre estivéramos com a lestásia. num dia tínhamos que persuadir o consumidor a comprar o que o marketing tinha produzido, no outro sabíamos todos que o marketing se baseia pelas necessidades do consumidor. em um momento a ração semanal de chocolate tinha sido diminuída de 30 para 20 gramas, no outro todos sabíamos claramente que ela tinha sido era aumentada para 20 gramas. em uma aula víamos todo o aspecto artístico e revolucionário das propagandas da benetton, em outra nos diziam que toda propaganda é feita com base em minuciosas pesquisas que orientam - e delimitam - do começo ao fim o processo criativo. não é possível, tinha que haver algo de errado. mas eis então que surge o livro de goldstein... digo, de orwell, para me orientar. marketing é duplipensar. é essa a resposta, a conclusão a qual irremediavelmente chego. "duplipensar quer dizer a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e aceitá-las ambas", diz orwell, pelas palavras de goldstein. o marketeiro, o publicitário, o admistrador, enfim, todo tipo de profissão de que trabalhe com marketing, sabe, ao mesmo tempo, que o marketing é a melhor maneira de fazer sua empresa vender mais, e que o marketing nada mais é que a satisfação de clientes. sabem que o marketing não cria necessidades, apenas estimula desejos, e que é importante tornar tais desejos tão necessários quanto possível para o consumidor! exemplo prático. alguém aí faça uma estatística de quantas pessoas que possuem telefone celular conseguiriam passar uma semana sem esse telefone. quase ninguém, com exceções pontuais, certo? agora me diga quantas pessoas no século XIX precisavam, de fato, de um telefone celular. pessoas que tinham sua vida prejudicada pela ausência desse. não consigo pensar em ninguém além dos médicos. já vi um autor (não me lembro quem agora, mas se alguém aí fizer muita questão posso descobrir fácil) definir 'necessidade' como aquilo que é inerente ao ser humano, como alimento, comunicação, desejo de integração social etc, e 'desejo' como especificações dessas necessidades, como mcdonald's, telefones celulares, artigos de moda etc. agora, ainda me detendo no exemplo do celular. todo mundo tem necessidade de comunicação? claro que tem. mas será que todo mundo tem necessidade de um telefone celular? ou será que a coerção social é tão forte (seu patrão precisa falar imediatamente com você, sua namorada demanda saber já sua localização) que hoje não dá pra ficar sem celular? não estou negando os benefícios da tecnologia. mas é meio óbvio que esses benefícios andam superestimados. esse exemplo do celular foi alvo de uma discussão numa aula de ética publicitária outro dia. hoje em dia tem celular com câmera! já posso me imaginar, daqui a alguns anos, incapaz de viver sem uma câmera no telefone, da mesma maneira que hoje não consigo ficar sem celular. teconologia é bom, é conforto etc, mas a partir do momento em que isso, na sociedade, torna-se uma obsessão (a cada nova tecnologia o velho fica inútil; vocês usariam hoje aqueles tijolos da motorola de antigamente?), e acarreta, ainda por cima, efeitos colaterais daninhos (invasão de privacidade, só para falar do mais óbvio; quem hoje consegue ter alguns segundos de paz, dando uma volta pra relaxar, se estiver em 'horário de trabalho'?), significa que alguma coisa está errada. o marketing está criando necessidades. está manipulando os gostos da população com a propaganda ao mesmo tempo que os estuda - e não me venham com a velha bobagem 'propaganda só diferencia uma marca da outra', porque, quando você diz 'beba skol', você diz 'beba skol' e 'beba cerveja', ao mesmo tempo. a invasão de privacidade hoje é uma rotina - seja seu chefe ligando no seu celular no domingo à tarde, seja a riaa (associação das gravadoras americanas) bisbilhotando no kazaa procurando bodes expiatórios para seus processos. e ai de você se você não concordar e não achar tudo muito natural; na ausência de uma polícia do pensamento, toda a sociedade está preparada para excluir o indivíduo que não 'se adapta'. se você não concorda, oh well, o babaca é você. o marketing efetivou o duplipensar. até protótipos de 'grandes irmãos' já temos: bush nos eua, osama no oriente médio, lula no brasil... e peraí, eu, fazendo faculdade de propaganda, me tornando quase um membro do partido interno? mas nem fodendo! beleza. jornalismo não é muito diferente disso. também está subordinado, embora em menor grau, a toda essa estrutura do marketing, assim como todas as profissões que existem. mas, quem sabe, algum dia, no futuro, se eu me tornar um jornalista respeitado e o escambau, não exista uma mínima chance de eu ter uma coluninha de 200 toques no cantinho inferior esquerdo da página par interna de um jornal qualquer, pra poder dizer o que eu penso? ou será que eu já estou duplipensando? × quem, quando ugo pozo, 23:01 × 20.09.03 ainda não morri. apenas ocupado com as formalidades do meu curso - já que estou aqui, não é porque vou embora que vou largar tudo de uma vez, né? e também com a formação de chapa do c.a., a que, se tudo der certo, vou pertencer ano que vem. tive várias idéias de posts para publicar nessas últimas semana, mas a fase de produção anda mais encrencada que a criação por aqui... quem sabe, quando eu mudar de curso, com um raciocínio menos marketeiro, eu não volte a escrever direito por aqui? ah sim, em breve teremos uma surpresa por aqui. não sei quão breve, mas ah, que teremos, teremos... × quem, quando ugo pozo, 05:30 × 10.09.03 o plano mudou não agüento mais vou pular janela afora vou adquirir uma uzi para mim vou tomar veneno puro meu computador me fala -- é isso aí, macacada. jornalismo, aqui vamos nós! × quem, quando ugo pozo, 01:28
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